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quinta-feira, 10 de junho de 2010

Meu Querido, Meu Velho, Meu Amigo...

Meu amor,

Esse post não é sobre nós dois. É sobre minha relação com meus pais e um pouco do sofrimento que vivemos juntos, após eles descobrirem de mim.

Um episódio marcou demais a nossa história. Meu pai, em 15 de agosto de 2000, completou 50 anos. Para comemorar a data, assim como toda a felicidade que vivíamos, ele organizou uma grande festa no Clube do Exército. A festa foi realmente boa, com todos os amigos presentes, meus e dos meus pais.

Eles nada sabiam sobre mim e vivíamos o sentimento de amor que nos unia de forma muito intensa. Éramos uma família de dar inveja. O carinho era demonstrado a cada instante, por estar presente em cada gesto feito entre mim, meu pai, minha mãe e meu irmão. Nada nos abalaria. Nesse dia tive a certeza de que, quando meus pais descobrissem a minha homossexualidade, tudo ficaria bem. Ali em sentia o amor incondicional.

Como forma de agradecer tudo isso, preparei uma surpresa para o meu velho. Procurei um amigo dele, que toca piano maravilhasamente bem, e treinei uma música, para cantar na hora da festa. E então, na frente de cerca de 200 convidados, cantei essa música:

Esses seus cabelos brancos, bonitos, esse olhar cansado, profundo
Me dizendo coisas, num grito, me ensinando tanto do mundo...
E esses passos lentos, de agora, caminhando sempre comigo,
Já correram tanto na vida,
Meu querido, meu velho, meu amigo
Sua vida cheia de histórias e essas rugas marcadas pelo tempo,
Lembranças de antigas vitórias ou lágrimas choradas, ao vento...
Sua voz macia me acalma e me diz muito mais do que eu digo
Me calando fundo na alma
Meu querido, meu velho, meu amigo
Seu passado vive presente nas experiências
Contidas nesse coração, consciente da beleza das coisas da vida.
Seu sorriso franco me anima, seu conselho certo me ensina,
Beijo suas mãos e lhe digo
Meu querido, meu velho, meu amigo
Eu já lhe falei de tudo,
Mas tudo isso é pouco
Diante do que sinto...
Olhando seus cabelos, tão bonitos,
Beijo suas mãos e digo
Meu querido, meu velho, meu amigo


Não era uma música conhecida, por mim ou por meu pai, mas a achei muito adequada. E choramos juntos ao final, abraçados à minha mãe e ao meu irmão, certos de que nada poderia me abalar quando estivesse sob a proteção dos dois.

Pena que a história não aconteceu assim...

Poucos meses depois contei para o meu pai de mim. Na semana seguinte fui a um churrasco e os amigos dele me pediram para cantar essa música novamente. O clima estava tão ruim entre nós que no meio da música minha voz embargou, e tive uma crise de choro inesperada. Ninguém entendeu nada. Ou entenderam tudo.

Essa é uma das lembranças mais tristes que tenho desse processo...

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