Lisboa é suja, pobre e fedida... Adorei!!!
A verdade é que em diversos momentos me senti no centro do Rio de Janeiro e em casa (Não que a minha casa seja suja e fedida). Já na primeira ida à rua tivemos de pegar o metrô e uma coisa ficou evidente: Lisboa é feita de gente como a gente. Quer dizer, nós somos como eles, né? Engraçado, mas conforme fomos nos aproximando da costa a latinidade ficou mais evidente. Desde Barcelona começamos a ter a sensação de pertencimento, e em Lisboa foi o ápice.
Antes de mais nada, o Coronel Ponce estava completamente certo. A melhor coisa que fizemos foi trocar dois dias em Madrid por dois dias em Barcelona. Fizemos questão de explorar cada cantinho e seguir cada dica dada. Com isso Lisboa foi a cereja do bolo em uma viagem aproveitada ao máximo.
Percorremos todas as praças e registramos todos os monumentos. Ali tinha não só a história de Lisboa. Era o Brasil que estávamos conhecendo um pouco mais. Tando que a principal praça da cidade é a Praça Don Pedro IV, o nosso D. Pedro I, homenageado por ter outorgado a carta constitucional em 26. Foi uma delícia ter lido 1808 antes dessa viagem e já ver tudo com outros olhos.
E não só pela história a identificação é imediata. Foi um alívio terminar a viagem em uma “ilha” de portugueses cercada de povo das mais diversas línguas por todos os lados. Estávamos na Europa, mas ouvindo a língua mãe e até falando gírias. Bom demais!
Para registro, seguimos as dicas e visitamos todos os pontos turísticos: Praça dos Restauradores, Praça D. Pedro IV, Praça do Comércio, Torre de Belém, Monumento aos Descobrimentos, Monastério dos Jerônimos, Elevador de Santa Justa, Largo do Carmo, Catedral da Sé, Igreja de Santo Antônio, Praça do Marquês de Pombal, Castelo de São Jorge e tivemos até tempo para darmos uma pinta em Sintra, em Cascais e no Cabo da Roca, o ponto mais a Ocidente da Europa.
Mais importante do que falar de cada um deles é ressaltar o que mais me impressionou. Bom, em Belém, além de ter conhecido a Torre e o Monumento aos Descobrimentos, à beira do Rio Tejo, eu consegui me apaixonar perdidamente por Portugal. E três vezes. Cada Pastel de Belém devorado foi uma paixão suscitada a mais por Portugal. Não é a toa que o danado é tão famoso e imitado. Quentinho, crocante por fora e deliciosamente cremoso por dentro, com um creme no ponto exato que um creme deve ter. Minha alma de gordo foi aos céus ali! O lugar, Pastéis de Belém, tem como entrada uma portinha que engana. Tivemos a ideia de que entraríamos em uma loja com os seus 30 metros quadrados no máximo. Ledo engano. A fama do Pastel fez o dono rico. Nunca entrei em uma confeitaria (pastelaria) tão grande e labiríntica (estou chocado por existir esta palavra no editor de texto!).
Do Castelo de São Jorge cumprimos o que parecia ser uma regra na nossa viagem. Vimos a cidade de cima e conseguimos ali reconhecer todos os pontos já visitados à pé. E que vista...
Um ponto alto também foi a ida à Catedral da Sé. Não por mim, mas pela minha mãe. Vimos ali a pia batismal onde Santo Antônio foi batizado. Fomos também à Igreja de Santo Antônio, onde ele nasceu e viveu. Pudemos ali conhecer o seu antigo quarto, também visitado por um (outro) ilustre visitante, o Papa João Paulo II. Nem preciso dizer que mais importante do que estar ali era imaginar a alegria da minha mãe quando eu contasse. Fiz uma prece pela minha família, que está para crescer, e agradeci por todas as graças que tenho recebido, afinal, nunca precisei colocar o pobre santo de castigo no congelador.
Estávamos tão tranquilos que nos demos ao luxo de no último dia irmos a Sintra, onde estão o Palácio da Pina e o Palácio Nacional de Sintra. Esse último, honestamente, achei bem sem graça, mas o primeiro é muito interessante. Um louco com o meu nome, o Rei Fernando II, com medo de a Revolução Industrial acabar com o mundo, teve a brilhante ideia de construir um castelo que misturasse todas as culturas e referências. Pense em um samba do afro descendente excepcional! Mas é sem dúvida um passeio bem interessante! Além do Palácio da Pina, ainda em Sintra, a Quinta da Regaleira me deixou boquiaberto. Um megamilionário maçom, sem mais o que fazer com o dinheiro, resolveu construir um Palácio no meio da cidade. A obra demorou 15 anos e ele apenas pôde viver 8 anos ali. Apesar de toda a loucura, o palácio, a catedral e o jardim ficaram lindíssimos. Depois fomos para o Cabo da Roca e ficamos o mais perto possível do Brasil enquanto na Europa. Por fim passamos de ônibus em Cascais, que é a cidade de praia dos milionários portugueses. Digna! Quero uma casa lá também!
Tão gostoso quanto conhecer esses lugares foi conviver com os portugueses. O povo é engraçado e pronto! Aliás, descobrimos a origem do “pronto” tão falado em Recife. Veio de além mar, pois em Lisboa o “pronto” é tão usado quando o “Vale” na Espanha e o “Prego” na Itália. Conhecemos toda a sorte de lusitanos, dos mais divertidos aos mais sisudos. Só há uma regra: Eles não param de falar.
Na noite de sábado queríamos assistir a um show de fado, mas não sabíamos se o hotel tinha conseguido fazer nossa reserva. Pegamos um taxi no El Corte Inglês e rodamos a cidade atrás de uma casa de fado com disponibilidade de mesa. Não conseguimos entrar em lugar algum, mas foram uns dos quarenta minutos, e quinze euros, mais divertidos da viagem. A Rê se emocionou por lembrar do seu avô e eu me senti dentro de uma piada... O Seu Arlindo Sena, o taxista, era uma simpatia, mas simplesmente não deixava ninguém falar. Figuraça!!! Ele queria nos levar para uma casa tradicional e saltava do carro para ver se alguém poderia nos receber. Uma graça! E quando voltava ao carro com a resposta negativa, disparava novamente! No dia seguinte o taxista que nos levou ao Clube do Fado fez EXATAMENTE A MESMA COISA!
Honestamente... Não sei se consigo descrever Lisboa. Não é uma cidade extraordinária em sua arquitetura, como outras visitadas nessa jornada. Também não é tão limpa, sem dúvida. Posso dizer que foi o lugar onde me senti menos seguro, com certeza. Apesar de tudo isso, o que senti em Lisboa foi diferente. E foi essa a sensação que me ocorreu quando alguém na rua passou cantando “É uma casa portuguesa, com certeza”, com o sotaque do Vô Antônio...
Tudo terminou com uma noite ao som do Fado, cantando Lisboa e o amor em vozes lindas, nada mais adequado!
Voltaria milhões de vezes, e pronto!
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