Lindo da minha vida,
Tenho que ir dormir para conseguir acordar amanhã e pegar o trem para Madrid, mas antes queria te passar a impressão que tive de Roma.
Esses últimos dias estão bem difíceis porque a saudade está maltratando, mas pensar que daqui a uma semana eu matarei toda essa saudade me traz tranquilidade. Você é o amor da minha vida e em Roma, naquele exato momento que te liguei, estar apaixonado por vc deixou tudo em volta muito mais bonito. Espere por mim!!!
Vamos a Roma...
Antes de mais nada, uma coisa muito engraçada que começou a acontecer em Roma foi a confusão de idiomas que passamos a fazer. Se alguém nos perguntava em inglês, respondíamos em francês. Se falassem francês, respondíamos em espanhol. Se falavam em italiano, a resposta vinha em inglês. E com as poucas palavras que conhecemos desses idiomas fizemos todas as combinações possíveis. Enlouquecemos Roma, certamente!
Nossa passagem por Roma foi sem dúvida alguma uma das etapas mais, digamos, interessantes da viagem. Não vou mais comparar cidades, porque sempre acabo me contradizendo, mas até agora Roma foi a que mais deu o que falar. Posso afirmar sem dúvida alguma que fui me apaixonando aos poucos por Roma e saí com vontade de ter mais tempo para aproveitar a sensação boa que só aconteceu no último dia. Talvez tenha sido mais culpa nossa do que da pobre cidade, pois não nos planejamos muito e acabamos perdendo tempo no que não interessava.
Bom, não poderíamos ter feito muito diferente também. Eu cheguei ligeiramente prejudicado, ainda caminhando com ajuda de muletas, e a Rê com um resfriado pesado. Nossos corpos já estavam pedindo socorro.
Por isso mesmo no primeiro dia nos limitamos a rodar por Trastevere e aproveitar uma boa comida Italiana. Foi a massa mais gostosa que eu comi enquanto estive em Roma. Mais uma vez um Carbonara, que já havia comido em Veneza e pediria mais uma vez em um restaurante sujo ao lado do hotel. O do Trastevere foi o melhor. Com certeza o tempero do prato levava um pouco da irreverência do dono, que pendurou na porta uma placa “we are against war and turist menu”. Ainda que sem o tal menu para turista, percebemos já na primeira refeição que comeríamos melhor e gastaríamos muito menos do que em Paris. Aproveitamos para conhecer a Igreja Santa Maria de Trastevere, que, confesso, só vimos por fora, pois a Rê começou a piorar e precisávamos correr para o hostel.
O hostel, Alessandro Downtown, nos deu algumas experiências legais também. Nosso primeiro quarto dividimos com um cara da Áustria. Perguntei o nome umas três vezes, mas sou incapaz de repetir. Ele foi uma companhia muito bacana, tanto que no nosso último dia neste quarto marcamos um encontro em uma das fontes da Piazza Navona, que acabou não acontecendo porque ainda estávamos nos recuperando (eu do pé e a Rê da gripe). Bom, ele foi uma companhia quaaaaase perfeita, com exceção do peido que ele deu durante a noite, que, sério, nos acordou! Deus do céu! O que era aquilo! Era praticamente um grito de agonia.
Na troca de quarto, agora com banheiro, conhecemos outros três mochileiros: um músico, uma menina de Taiwan (Moss) e o Luciano, de Sorocaba. A menina era muito doidinha e curiosa para saber tudo a nosso respeito e sobre o Brasil. Parecia mesmo ser uma ótima companhia, mas só nos encontramos durante uma noite, pois ela deixou o quarto para dar lugar ao tal músico, sujeito de poucas palavras. Um loiro, nem bonito, nem feio, nem sujo, nem limpo, nem simpático, nem antipático. De todos o mais legal mesmo era o Luciano de Sorocaba, que me lembrava vagamento o Didi Mocó dos trapalhões. Pense em um cabra gente boa! A história dele também era bem legal. Noivo, com cerca de 30 anos, e viajando pela primeira vez ao exterior. Após vários anos sem férias juntou dinheiro para fazer um curso de um mês de inglês na Inglaterra e aproveitou para conhecer um pouco melhor a Europa.
E não só pelas companhias o hostel merece ser comentado. O pessoal realmente estava preparado e disposto a receber o turista. Eles nos quebraram muitos galhos, principalmente quando a Rê começou a passar mal. Já preocupado por termos de voltar a hospital procurei o pessoal da recepção, que prontamente nos encaminhou à farmácia, informando que em Roma os farmacêuticos têm formação complexa a ponto de substituir o médico para casos mais simples. Dito e feito. O remédio receitado foi suficiente para a Rê melhorar em 2 dias.
A localização do hostel também facilitou e muito a nossa vida, pois ficava a apenas alguns passos da estação de metrô Termini, ponto de partida e chegada de quase todos as rotas de Roma. Isso foi muito útil no dia em que precisamos pegar o ônibus de turismo do tipo “stop and go”, que utilizamos no dia após a nossa chegada, assim como na chegada e partida da cidade, pois o nosso trem de Veneza parou NA estação e o trem para o aeroporto Fiumicino saía DA estação. Ou seja, perfeito!
Ou melhor, quase! O banheiro era bem nojentinho e a internet grátis falhava quase sempre. Nota 8,5 para o hostel.
Justamente por ser próximo à estação de trem e apenas termos ido de ônibus a Trastevere, nossa primeira impressão de Roma foi ruim. Uma cidade suja com um povo grosso. Foi difícil enxergar graça e poesia naquilo que estávamos vendo. Logo de cara presenciamos umas 3 brigas entre vendedores e clientes, o que voltaria a ocorrer durante os outros dias. Na região do hostel, a sujeira no meio da rua e a cara de boca do lixo também tiraram um pouco o romantismo da cidade. Ainda que Trastevere tenha mostrado um pouco seu charme, fomos dormir frustrados por não termos visto a Roma dos filmes de Felini.
Nosso segundo dia acabou comprometido pelas enfermidades e ficamos realmente limitados. Como alternativa para que aproveitássemos o dia, ainda que ainda convalescentes, tivemos de pegar o tal ônibus de turismo. Não foi de todo ruim. Roma começou a mostrar sua cara e conhecemos o colossal Coliseu e as ruínas do Forum Romano. Também corri o risco e coloquei minha mão na boca da verdade. Saí ileso. Na mesma caminhada conhecermos o Capidoglio, com uma gigantesca estátua de Marco Antônio, e ficamos impressionados com a grandiosidade do Monumento a Vitório Emanuele. É realmente de cair o queixo. A beleza é incontestável em todos os detalhes. Estamos só nós aqui e não preciso mentir: Foi o monumento que mais me impressionou. (Depois fiquei envergonhado por ter pensado assim, e você entenderá mais adiante).
Cansados, pé doente e narizes escorrendo, voltamos para o hotel para mais uma noite de remédios e sono, em busca da recuperação para encararmos o Vaticano no dia seguinte. Amém! Sabe que eu acho que Ele ouviu nossas preces? Acordamos realmente melhores e dispostos a conhecer cada cantinho da Basílica de San Pietro.
Para a nossa “sorte” era quarta-feira, dia da benção do papa. O vimos a alguns muitos metros nos momentos finais da benção. Essa foi a parte boa. A parte ruim: Por ser o dia da benção TODOS OS CANTOS DO VATICANO ESTAVAM SIMPLESMENTE INTRANSITÁVEIS. 40 minutos para irmos ao banheiro e mais de uma hora na fila para entrarmos no Museu do Vaticano. Me senti na fila do brinquedo mais concorrido da Disney, com várias crianças correndo atrás do seu guia. A diferença é que no lugar de crianças colocaram japoneses com máquinas fotográficas.
Persistimos e tentamos conhecer tudo, mas foi mesmo o maior programa de índio até agora. Acho até que foi uma penitência por alguma arte que fiz no passado. Ou será que fiquei com crédito??? Enfim... Eu só sei que quando finalmente cheguei à Capela Sistina não havia mais fôlego para nada. Ou melhor, não havia mais ar para ninguém. Tanto que uma senhora que estava imprensada entre dois grupos de japoneses acabou por desmaiar... Se para entrar foi difícil, para sair foi muito mais. Os seguranças estavam represando a multidão para evitar confusão, mas acabaram por manter todos presos na minúscula capela.
O pior é que acho mesmo que foi azar, pois no dia seguinte o Luciano comentou que não pegou fila e nem confusão alguma :/
Tentando salvar o dia, corremos para a Fontana de Trevi, que é linda, mas parecia uma cachoeira de japoneses, o que também me deixou um pouco frustrado. Coisas de viagem. Não se pode ganhar todas. No mesmo dia mandei um e-mail para um amigo que tinha morado 4 anos em Roma pedindo dicas para o meu último dia, pois não havia a possibilidade de eu sair de Roma com aquele sentimento.
DITO E FEITO. E a partir daqui tudo o que eu disse sobre Roma pode ser desconsiderado. O melhor dia da viagem nós passamos em Roma, com ajuda da sorte, do clima, das dicas e de um taxista fantástico que nos permitiu aproveitar até o último filete de sol.
Tudo começou já no café da manhã. Seguindo a sugestão da Thaís, fomos ao Panella, um café/padaria delicioso, que já demonstrava que o dia seria diferente. De lá seguimos para a Igreja de San Giovanni, que é sem dúvida e igreja mais linda que já entrei na vida (agora posso dizer que é a igreja acabada mais linda, pois a Sagrada Família de Barcelona lidera o hanking das inacabadas). E foi a primeira vez em Roma que fiquei boquiaberto com a suntuosidade de uma Igreja. Pensei muito na minha mãe, pois tenho certeza que ela se emocionaria ao ver os apóstolos esculpidos em mármore nas laterais da Igreja. O altar também era magnífico. Sem falar que não tinha a muvuda do dia anterior. Pude, pela primeira vez em Roma, acender uma vela e fazer uma oração pelos meus. E meu amor por Roma aumentou um pouco.
Depois fomos para outra Igreja, a Santa Maria Margiori, que não me impressionou tanto porque ainda estava com a San Giovanni Luterano na cabeça. Dali seguimos para conhecer a Piazza de Spagna. Não foi nem de longe o ponto alto da cidade, mas amei ver todos em volta da praça curtindo uma quinta-feira ensolarada com jeito de sábado. Jovens, trabalhadores, turistas, locais, idosos... Todos sentados em tornos de uma fonte pequena simplesmente vendo a vida passar. Acho que ali comecei a captar um pouco da alma da cidade.
A fome já estava batendo e teríamos mesmo de arriscar um restaurante. Fomos em um próximo à praça. Um tal de “DuBar”. BINGO!!! Foi o primeiro filé macio que comi na Europa. Caro, mas macio.
Sem maiores detalhes, para tentar abreviar um pouco o relato, passamos nesse dia também pela Piazza Del Popolo, que estava se preparando para receber algum evento que não poderíamos prestigiar por conta da nossa partida. Fomos também à Igreja Santo Ignácio de Loiolla, que tem umas pinturas lindíssimas no teto, e no Panteon, que não me emocionou tanto. Seguimos novamente para a Fontana de Trevi, na esperança de metade dos japoneses terem ido embora. Doce ilusão. Ainda não seria desta vez que a cena de “La Dolce Vita” seria revivida na minha memória.
Foi então que virei para a Renata e fiz a proposta indecorosa de pegarmos um táxi para conhecermos nos últimos minutos restantes de sol todos os pontos turísticos fora do roteiro, que nos haviam sido indicados pela Thaís. Topado... E o dia que estava ótimo ficou PERFEITO!!!
Santo Jonny!!! Esse é o nome do taxista que pegamos e que foi o melhor de todos os guias! Pedimos para ele nos levar na Fonte Acqua Paola, que a Thaís tinha dito ser a melhor vista de Roma. Ele se negou, pois disse que a melhor vista de roma estaria no monumento a Garibalde, um pouco mais acima. E ELE ESTAVA ABSOLUTAMENTE CERTO! Ficamos boquiabertos com a beleza do lugar. Pense em um lugar romântico! Fiquei com muita vontade de estar lá com você, com um vinho e com uma noite quente para gastar falando besteiras. Quero voltar lá contigo e rápido!!!
E meu amor por Roma cresceu um pouco mais.
A Thaís também falou que se fôssemos até a Piazza Cavalieri de Malta, déssemos a volta no castelo e olhássemos pelo buraco da fechadura, teríamos uma surpresa. Pois o Jonny nos levou até o Portão... que estava escancarado e estragou completamente a surpresa. Mesmo assim o porteiro nos contou o segredo. Olhando pelo buraquinho da fechadura apareceria a cruz do topo da Basílica San. Pietro, do Vaticano.
Cumprido todo o roteiro, o Jonny nos levou para a Piazza Navonna, passando pelo tal monumento que antes eu havia achado o mais lindo de toda a viagem. Ele disse logo que aquele monumento era a vergonha dos que vivem em Roma, pois teria sido construído pelo seu último rei, e que era a memória viva de um período fascista. Disse mais. Disse também que ficava incomodado porque os americanos sempre o achavam magnífico, pois estavam mais preocupados com a estética do que com a história, sendo que a verdadeira beleza tinha ficado escondida atrás daquele prédio: o coliseo e o fórum romano. Essa sim seria a verdadeira história a ser lembrada com orgulho por Roma. Óbvio que eu fingi que nem tinha reparado no gigantesco prédio antes.
Chegamos então na Piazza Navona. A noite já tinha caído. As três fontes da praça estavam iluminadas a ponto de deixar a água com um azul cristalino perfeito. Não havia uma nuvem sequer no céu. E um violeiro dedilhava músicas italianas clássicas. Chorei de por estar ali e agradeci por todo o amor que recebi e pude dar nessa vida. Ser e estar apaixonado fez diferença ali. Tudo pareceu ser lindo e definitivamente entendi Roma. Entendi tudo o que falam.
A cereja do bolo foi o jantar de despedida. Acatamos a dica dada pelo Saulo e pelo Romero e fomos a um restaurante bem próximo à Piazza Navona. Osteria Del Vecchio, salvo engano. Um casal gay na faixa dos 50 e poucos transformou uma casa pequena em um restaurante muito charmoso, com comida italiana típica e um tiramisú irretocável! Ali decidi que quero fazer isso quando me aposentar. Pode ser em Pirenópolis também! Só sei que ver aquele casal trabalhando junto em Roma me deu a impressão de que juntos eles enfrentariam qualquer problema. Fiquei com vontade de fazer isso com vc! Já imaginou!!!
E assim me despedi de Roma: Apaixonado pela vida e pela cidade, ciente de que existem diversas variações de carbonara entre o delicioso e o péssimo, com vontade de voltar o mais rápido possível e de saco cheio de ser chamado de prego!
E que venha Barcelona!
Prego!
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