Esse certamente será o relato mais curto, sem graça e menos empolgante de todos, pois das 24 horas que passei em Veneza, umas 15 gastei dentro do hotel. Acho que porque quis fazer valer cada um dos 180 euros que torrei na diária.
Esse esbanjamento não foi porque o encosto de um milionário baixou em mim. Na véspera da viagem a Veneza a Thaís, que estava hospedada no Adam, passou algumas dicas e disse que a localização do hotel que havíamos reservado de Brasília tornava impossível a nossa chegada na estação às 6 da manhã, hora que partiria o trem para Roma.
Por sorte, na ida para Veneza, perdemos a parada do trem e tivemos de descer na parada seguinte, que era a mesma de onde partiria nosso trem para Roma. Com isso procuramos o hotel mais próximo da estação e tudo ficou resolvido. Sem falar que eu ainda estava andando de muletas e com uma mochila de aproximadamente uns 20 kg. No final das contas foi tudo de bom. Só depois descobrimos que o hotel é de uma rede chiquééééééérrima aqui da Itália. Phyno! Com ´PH´!
Antes de falar um pouco (bem pouco) da cidade, compensa registrar uma pequena saia justa que passamos no trem a caminho de Veneza. Compramos um vagão com camas, pois as 14 horas de viagem tinham de passar como um sonho. Chegando ao vagão, localizamos as nossas camas. Seriam as duas camas debaixo. As outras duas, as de cima, já estavam ocupadas, pois já haviam colocado duas malas na cabine. Nos acomodamos nas camas debaixo e começamos a conversar. Meia hora depois de o trem ter partido um casal francês entrou na cabine. O inglês deles era tão bom quanto o meu francês, o que tornou qualquer tipo de comunicação inviável. Ele pegou o celular e ligou para alguém da companhia de trem. O que entendemos era que ele estava reclamando, pois havia alguém (nós) no vagão dele e da esposa. O rapaz da empresa prontamente chegou ao vagão e, pelo que entendemos, deu uma boa de uma enquadrada nele, que estava errado desde o começo. Com isso o casal francês ficou constrangido e voltou para o vagão restaurante até a hora de dormir. No dia seguinte acordamos os quatro no mesmo vagão, mas eles já estavam suuuuper simpáticos. Curioso como uma vergonhazinha educa um francês!!!
Colocamos nossas malas no hotel e fiz um pequeno tour na cidade, só para provar que estive por lá. Não pude mesmo abusar, e fiquei com um gostinho de quero mais. Tudo na cidade é voltado para os casais apaixonados. Gôndolas, ponte dos suspiros, máscaras de pierrôs e colombinas, casal de noivos em pleno canal beijando apaixonadamente sobre a gôndola. Não há como não entrar no clima.
Esse tira-gosto de Veneza que tive me causou uma boa impressão. E é difícil ser diferente. Eu não conheço nenhum outro lugar no mundo que esteja prestes a afundar. Quando eu ouvia isso imaginava que falavam de décadas, mas certamente não passará de poucos anos. Fiquei chocado quando estava passeando pela Praça Central, de San Marco, salvo engano, e tivemos de burlar uma poça gigantesca que simplesmente impedia a passagem. Observei que todas as pequenas ruas mantêm no cantinho uma espécie de andaime que deve ser desvirado e utilizado na caso de o nível da água subir e inviabilizar a caminhada. Incrível. Ainda mais chocante foi ouvir de relance que aquela água acumulada no meio da praça central não era àgua represada da chuva, mas sim água que brotava do chão, pois a cidade efetivamente está no nível do mar.
Não pensar nisso e se ater apenas à beleza da cidade me fez viajar um pouco e imaginar quão mágica é a cidade. Essa magia é imposta também pelas máscaras que riem para você em todas as ruas percorridas à pé. Eu não trouxe uma pra mim, por conta do peso e do transtorno que seria carregar uma máscara de uns 60 centímetros E UMA MOCHILA DE 20 QUILOS, mas eu perdi muitos minutos admirando o trabalho, que é delicado e lindíssimo. Por algum tempo cultivarei o arrependimento de não ter comprado uma máscara preta que vi. Ficarei com a foto como recordação. E se a cidade não afundar antes, voltarei para buscá-la.
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